Um levantamento do Ministério da Saúde revela uma realidade alarmante no Brasil: os motociclistas representam 60% das internações hospitalares decorrentes de acidentes de trânsito. No Paraná, o cenário não é diferente. Segundo a Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), os sinistros envolvendo motos concentram o maior número de atendimentos hospitalares, com 8.007 casos registrados em 2024 — uma média de 21 por dia. Para o atendimento dessas vítimas, foram investidos R$ 13,4 milhões. Em 2025, até o momento, já foram 573 internações, somando R$ 838 mil em despesas públicas.

As faixas etárias mais afetadas são adultos entre 30 e 59 anos, seguidos por jovens de 15 a 29 anos. A enfermeira Giselle Henke, do Hospital Universitário Evangélico Mackenzie, relata que de 60% a 70% dos 40 leitos da ala de ortopedia e queimados são ocupados por vítimas de acidentes com motocicletas. “Esses casos trazem lesões graves e muitas vezes irreversíveis. O impacto é físico, psicológico e também econômico, tanto para as famílias quanto para o sistema de saúde”, destaca.

Em 2024, o Brasil registrou 227.656 internações hospitalares causadas por acidentes de trânsito, o equivalente a uma vítima recebendo atendimento de emergência a cada dois minutos. Comparado a 2015, quando ocorreram 157.602 internações, houve um aumento de 44%.

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No mesmo ano, foram registrados 5.066 acidentes envolvendo condutores de motocicletas, com 24 mortes no local — 88 dos envolvidos estavam sem capacete. Já em 2025, 14 motociclistas já perderam a vida.

Desde a criação do Programa Vida no Trânsito (PVT), em 2011, Curitiba apresentou uma redução de 54% nas mortes causadas por acidentes de trânsito, caindo de 310 para 141 em 2024. No entanto, os motociclistas continuam sendo as principais vítimas, representando quase metade dos óbitos. Os dados são preliminares e fazem parte de uma análise do Comitê do PVT, que identificou que 32,3% dos acidentes com mortes na capital paranaense foram causados por comportamentos inadequados dos condutores, como uso de álcool, desrespeito à sinalização, distrações com o celular e excesso de velocidade.

“O número de mortes caiu, mas ainda temos 141 pessoas que perderam a vida no trânsito em um único ano. Isso não pode ser encarado com normalidade. O nosso plano diretor prevê ‘morte zero’, e devemos trabalhar para isso”, afirma Bruno Pessutti, superintendente de Trânsito de Curitiba.

Entre 1º de janeiro e 14 de abril de 2025, 45% das infrações de trânsito em Curitiba foram por excesso de velocidade — um total de 182.508 autuações. No ano passado, dos 1.652.305 registros, 43,24% também foram por esse motivo. “Dez quilômetros por hora acima do permitido podem significar a diferença entre a vida e a morte”, alerta Melissa Puertas Sampaio, diretora da Escola Pública de Trânsito de Curitiba.

Boa parte dos motociclistas acidentados trabalha em serviços de entrega. “O trabalho desses profissionais é essencial, mas precisamos lembrar que a segurança deles também é. Eles têm famílias, têm sonhos. É preciso trabalhar com segurança e dentro das leis”, reforça Melissa.

Além do sofrimento humano, os acidentes têm gerado uma sobrecarga preocupante no sistema de saúde. Segundo o coordenador médico do complexo regulador de urgência de Curitiba, Anthony Augusto Carmona, em hospitais como o Universitário Cajuru, referência em traumas, cerca de 12% da demanda do pronto-socorro corresponde a vítimas de trânsito. Em média, 54 pessoas são internadas por dia em Curitiba após acidentes, número que afeta diretamente o atendimento de outras urgências, como infartos e AVCs.

As autoridades alertam que a mudança de comportamento no trânsito é urgente. “Um trânsito seguro é feito por todos. Respeitar os limites de velocidade, a sinalização e ter empatia no trânsito pode salvar vidas”, finaliza Bruno Pessutti.